O pastor Manuel com o seu rebanho nas cinzas





Por Bernardo Markowsky





O pastor Manuel com o seu rebanho de ovelhas no monte, aldeia de Venda Nova, destrito de Montalegre, disse-me: "Tivemos de fugir neste grande incêndio de há poucos dias." Ele faz um gesto vago para a esquerda, em direção à mata. Seu rosto estava deprimido, falava baixinho. "As pessoas daqui suspeitam dum jovem casal, mas eu não acredito nisso. Acho que são os gajos das motocross. Jovens sem nenhuma ligação com a terra."
Passado um certo tempo vi-me perdido na negra floresta e encontrei uma cerca, a porta chamuscada da casa de Manuel. Imaginei-o com o seu cão pastor e as suas ovelhas, bem ali, com as cores vibrantes, como uma montagem num fundo plano e sombrio. Uma imagem poderosa! Vagueei por esta paisagem carbonizada durante hora e meia, antes de encontrar o caminho de volta para o que era vivo; os pássaros cantavam de novo e ouvi a melodia do vento nos pinheiros.
Em Paredes, uma pequena aldeia abandonada, o Sr. Jorge contou-me: "Isto é uma guerra civil em que as vítimas não têm nenhumas armas. Há uns dias estive no Gerês e voltei chocado. Tive que parar o carro por causa de um fogo intenso e vi um bando de jovens corços saindo a berrar para fugir do fogo, cheios de medo, sem as suas mães. Mas o mais terrível foi ver como eles paravam aturdidos e viravam-se a correr para novamente entrarem no fogo, procurando por suas mães. Nunca vou esquecer. Não precisamos de aviões de combate franceses, espanhóis, eu não sei mais quê... Precisamos de leis que proíbam que a terra queimada possa ser vendida. Precisamos de uma investigação criminal eficaz e um sistema judiciário eficaz. Precisamos de um governo com inteligência e acima de tudo: educação e formação para a juventude, repovoar e populações nas aldeias agrícolas. Há uma grande quantidade de terras abandonadas e muito trabalho a fazer."
Será que realmente precisamos duma sociologia sobre incêndios, como me disse um ambientalista? Não sabemos o suficiente desta sociedade em que vivemos? Uma sociedade parada, silenciosa e muda, uma sociedade estacionária, ansiosa, empurrada para uma esquina, uma sociedade muito particular que só se preocupa com assuntos particulares. É dito que cada povo tem o governo que merece. Mas a verdade é que o peixe começa a feder pela boca. Um governo que está ausente nos momentos de perigo por causa de férias invioláveis. Que só sabe apenas lançar pronunciamentos inúteis e absurdos que merecem toda a nossa rejeição.
E nós, o que devemos fazer? Vamos ficar de braços cruzados e cabeças baixas, os olhos bem protegidos com óculos de sol? Significa após o fogo ainda antes do fogo?
O terceiro poder, os jornalistas, os escritores, os fotógrafos devem emprestar a sua voz ás pessoas, que sabem falar muito bem, mas não são ouvidas. Têm de perseguir os líderes com perguntas diretas e insistir em respostas concretas.

Aqui permanece uma pergunta aos cientistas: É possível calcular a emissão de CO2 na atmosfera causada pelos incêndios? Isso seria um caso para ser punido pela Comissão Europeia.
Acho que é urgente formar um movimento ciívico para a vida, que reúna informações profundas, relatos de testemunhos, opiniões e sugestões para combater esta praga dos nossos dias, neste país em que vivemos.

Vila Nova de Gaia, Agosto 2010



Sem misericórdia





por Bernardo Markowsky



Nestes dias ouço muitas vezes estas palavras ditas em relação aos fogos postos.
«Se apanho um destes malditos, vou matá-lo, de certeza absoluta”» disse o meu merceeiro, um tipo verdadeiramente calmo. «E se fosse um parente seu»? –
«Também o matava, sem nenhuma misericórdia.»
Confesso, que também em mim já apareceram desejos deste género, quando vi a destruição, o fim da beleza, do encanto da natureza e enfrentei o dissabor e o cheiro do fim do mundo, causado pelas chamas. Doeu e muito me revoltei.
Com certeza, aqueles que atiçam fogos atuam sem nenhuma piedade e por isso não merecem misericórdia, mas nós, as vítimas merecemos. Os incendiários têm de ser julgados e condenados com a nossa comparticipação, quer dizer, nós temos o direito de ser informados durante todo o processo. Só assim temos a possibilidade de aprender, o que está a acontecer e lançar perguntas.
Os responsáveis devem de entender, que o direito da informação sobre este assunto, que toca a sociedade em si, é um direito fundamental da democracia.

Até hoje temos de sofrer e reclamar a falta dela. E não ajuda em nada, quando o ministro para os assuntos internos à frente das chamas diz que já temos leis suficientes para punir os fogos postos. Leis de protecção dos bens comuns e privados, que não são cumpridas e executadas, pouco merecem os seus nomes, têm mais semelhanças com permissões.
A sentença de morte não está ao nosso alcance, a constituição democrática proíbe-a e com muita razão. Não devemos chamar os espíritos, que ninguém sabe controlar; o excesso e o abuso esperam já. O desejo surge meramente do sentido de desamparo e tem uma ligação muito mais forte com a destruição, do que nós pensamos. Jovens perdidos no labirinto da modernidade têm o mesmo sentido de desamparo. E sentem a destruição à sua volta.

Quarteirões de prédios erigidos num instante como termiteiras, que têm nomes como «Pinhais do Douro», «Jardins da Arrábida», «Encostas Verdes» e por aí fora, fazem-me pensar. Por um lado apontam para o que está banido, por outro lado dão uma instrução secreta sobre a direcção do desenvolvimento, que nós sofremos actualmente. Já para não falar sobre um dos maiores e recentes
escândalos: a construção dum monstruoso hipermercado (o maior da Europa!) no meio dum espaço verde protegido e todas as circunstâncias relativas a isso. Os projectistas, os seus ajudantes, escondidos e conhecidos, os executantes não só ficaram livres e intocáveis, mas além disso com lucro, que tende a desculpar tudo para muitos.

Este caso podia ser, como outros, brevemente branqueado da consciência pública, mas irá ficar inesquecível na escuridão dos rumos e na inconsciência colectiva.
Porém certos gestos de repulsa, da desintegração, como passar por uma floresta na auto-estrada e atirar cigarros acesos pela janela do carro com uma grande gargalhada, como já testemunhei, são pouco perceptíveis e merecem ser denunciados. E não esquecer os montes de lixo deitados frequentemente nas entradas das zonas florestais.

A limpeza tem de ser muito maior, temos de limpar muito mais do que as matas!
Principalmente, como cidadãos somos co-responsáveis!


Vila Nova de Gaia, 1 de Outubro de 2010